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Governo velho em Israel

Jesús A. Núñez Villaverde

31-03-2009

Por mais forte que seja o desejo de se equivocar, algumas vezes é fácil acertar uma previsão. Após os resultados das eleições em Israel em fevereiro, era mais que previsível que Benjamin Netanyahu seria o encarregado de formar o novo governo, como também era previsível que seu esforço para voltar ao cargo de primeiro-ministro o levaria a formar uma coalisão de curto prazo, condenada à permanente instabilidade.

Agora, com a aceitação do partido trabalhista em participar do gabinete de Netanyahu - mais um sinal de sua vocação ao suicídio político -, confirmam-se os piores presságios para os que ainda tinham alguma esperança sobre uma futura paz no Oriente Médio.

Este presságio sombrio se baseia, em primeiro lugar, na própria figura do iminente novo chefe de governo. Netanyahu, como já demonstrou em seu mandato anterior no cargo (1996-99), é expert em adiar ad aeternum qualquer possível processo de paz, com o objetivo de evitar a emergência de um estado palestino viável. Sem entender que esta posição não apenas frustra e desespera aos palestinos, mas que também vai contra os próprios interesses israelenses de chegar algum dia a uma situação estável na região, o líder do renascido Likud está disposto a incomodar até o fim a quem pretenda cruzar seu caminho. E isso vale tanto para a administração Obama como para os demais membros do impotente quarteto - União Europeia, Rússia e ONU -, que se contentarão em confirmar que o processo de diálogo volta a se abrir (só em sentido estritamente formal) com a arruinada figura de Mahmud Abbas à frente de uma Autoridade Palestina em seu momento de menor popularidade e poder.

Quinta-colunistas
Se restava alguma dúvida sobre isso, basta ver os companheiros de viagem que decidiram acompanhar Netanyahu neste novo mandato. Avigdor Lieberman (líder do partido Israel Beiteinu e futuro ministro das Relações Exteriores) é o exemplo mais notório da falta de vontade política para chegar a alguma solução negociada que satisfaça minimamente às aspirações palestinas. Seu diâmetro de contaminação racista alcança não apenas os que habitam Gaza, Cisjordânia e Jerusalém leste, mas também 20% da população israelense (que têm, a seus olhos, o insuportável defeito de serem palestinos de origem, o que os converte, por definição, em quinta-colunistas a serem eliminados).

Não se pode esperar nada de novo a estas alturas do partido fundamentalista Shah, parasita do poder há muitos anos, na medida em que seu objetivo principal é se integrar a qualquer gabinete que permita manter sua privilegiada relevância social e econômica em benefício de sua fiel clientela. Teremos que ver como Bibi irá encarar e questionar as tensões que, com certeza, se produzirão entre os laicos do Israel Beiteinu e os radicais religiosos do Shah. Não será fácil, já que seu evidente apego ao poder não será um seguro a toda prova quando for preciso debater sobre a divisão de fundos entre diferentes prioridades em meio a uma crise econômica que vem afetando a coesão social israelense já há algum tempo.

Fratura
Mais deplorável é a decisão do debilitado partido trabalhista, liderado por Ehud Barak, que será novamente ministro da Defesa (como se sua gestão da campanha contra o Hezbolah, no verão de 2006, e a mais recente, contra Gaza, não tivessem sido suficientes para demonstrar sua nula idoneidade para o cargo).

Novamente, volta a se repetir o argumento de que sua presença no gabinete servirá para temperar a política dura que se espera de Netanyahu; como se a experiência acumulada (com Shimon Peres na mesma tessitura em ocasiões anteriores) não tivesse demonstrado de sobra que sua cumplicidade no governo apenas serve para legitimar as opções de força e o desprezo à legalidade internacional, enquanto arremessa o próprio partido no abismo. Hoje, o partido trabalhista é uma sombra espectral do que foi algum dia e não cabe descartar uma fratura interna que coloque fim a sua história (dos treze deputados que venceram nas últimas eleições, pelo menos sete declararam publicamente que não irão apoiar Netanyahu).

Espectadora privilegiada
O final do processo de formação do governo deixa a formalmente vitoriosa Tipzi Livni como espectadora privilegiada de um processo do qual espera colher, em breve, os frutos de tanto despropósito, como o que se prevê agora, a partir de 3 de abril, quando se oficializa o gabinete liderado por Netanyahu. A escassa duração dos gabinetes ministeriais e a convocação de eleições antecipadas é um traço característico da política israelense. Portanto, essa é a hipótese mais provável hoje.

Em todo caso, mesmo que este governo caia logo (este tipo de previsão também é recorrente, mesmo antes que o governo chegue a constituir-se), isso não deve ser interpretado como boa notícia. Por um lado, porque convém não esquecer que a situação atual deriva da soberana vontade dos eleitores israelenses - claramente voltados para a direita e extrema direita do arco político - , e seria muito improvável que, em curto prazo, se vá produzir uma mudança radical de suas opções. Por outro, porque os possíveis substitutos, começando pela própria Livni (que deve sua vitória eleitoral a sua aposta na campanha militar contra Gaza), não prometem nada melhor do que o que temos agora. Hoje, na Palestina, não há saída em vista.

*Jesús A. Núñez Villaverde é co-diretor do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH) em Madri.

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