Pela primeira vez os Estados Unidos reconheceram que também são responsáveis pelo problema do narcotráfico no México. Washington admitiu que a demanda insaciável por drogas e o livre comércio de armas nos EUA permitiram que os cartéis do narcotráfico no México se tornassem superpoderosos.
A Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, fez este ‘mea culpa' durante sua recente visita ao México. De acordo com ela, seu país deverá tomar mais responsabilidade para si no combate aos cartéis das drogas no México. Anteriormente, o presidente Barack Obama já havia dito que os EUA precisam fazer mais para acabar com o fluxo de armas e de dinheiro do tráfico de drogas para o país vizinho. "Precisamos fazer mais para ter certeza que armas ilegais e dinheiro não estão sendo enviados aos cartéis", destacou Obama.
Clinton: "Nós sabemos muito bem que os traficantes de drogas são
motivados pela demanda de drogas ilegais nos EUA." Foto: Reuters
O discurso de Clinton foi ainda mais claro: ela reconheceu que os EUA também têm culpa. No passado, funcionários do governo mexicano reclamavam que Washington nunca quis admitir que a constante demanda por drogas nos EUA era o que atiçava a violência no México.
Raramente os analistas mexicanos concordam uns com os outros, mas dessa vez todos destacaram a importância da declaração de Clinton. Ela reconheceu, por exemplo, que a impotência em acabar com o contrabando ilegal de armas dos EUA para o México tem como consequência a morte de policiais, militares e civis mexicanos.
"Nós sabemos muito bem que os traficantes de drogas são motivados pela demanda de drogas ilegais nos Estados Unidos", disse Clinton. De acordo com números oficiais, o crime organizado contrabandeia diariamente duas mil armas dos EUA para o México. "Está claro que a atual política não funciona e não é correto que nossa impotência crie uma situação em que a responsabilidade seja totalmente empurrada sobre o governo do México. Isso não é justo", completou a Secretária de Estado.
Lavagem
Os EUA ainda não divulgaram se o país irá partir para um controle mais rígido das substâncias químicas necessárias para a fabricação de drogas sintéticas. E também sobre a lavagem de dinheiro do tráfico.
Pouco antes da visita de Hillary Clinton ao México, a ministra de Segurança Interna dos EUA, Janet Napolitano, declarou que os cartéis das drogas formam um ameaça real à segurança do México e dos Estados Unidos.
"Os cartéis das drogas no México existem há muito tempo. O que é diferente agora é a escalada da violência, que causou duas coisas: uma é o combate às rotas do tráfico, por isso eles agora estão lutando por território entre eles. Mas a coisa mais importante é que o governo federal do México agora está combatendo estes cartéis", afirmou Napolitano.
País ingovernável
É fato que a violência no norte do México, na fronteira com os EUA, vem causando cada vez mais preocupação ao governo estadunidense. Washington tem advertido a população a não ir de férias para o México. Em diferentes fóruns, comenta-se que o México tornou-se um ‘estado falido', um país ingovernável.
Alguns altos funcionários de Washington acreditam que o presidente mexicano, Felipe Calderón, já perdeu o controle sobre algumas regiões que estão completamente nas mãos dos traficantes.
O governo dos EUA acha que o poder dos cartéis mexicanos forma uma ameaça maior para sua segurança interna que o Iraque ou o Afeganistão. Por isso Janet Napolitano anunciou a militarização da fronteira com o México.
Hillary Clinton precisa agora preencher a lacuna na relação entre os dois países deixada pelo governo de George Bush. Este ‘mea culpa' de Washington é um primeiro gesto.
