Não duro, mas com molejo. Assim é que se deve andar. Khumalo mostra como. Os zimbabuenses andam arrastando os pés, ele conta. Zulus andam com mais autoconfiança. O cabeleireiro de 32 anos anda descontraído atrás de seu balcão. Ele quer conversar, mas só se for perto do gerador, assim a conversa é abafada pelo som do motor. "Só duas pessoas nesta rua sabem que eu sou zimbabuense", ele diz baixinho.
Khumalo mora na favela Alexandra, onde há um ano a violência contra estrangeiros começou na África do Sul. Na rua em que o cabeleireiro trabalha, grupos de sul-africanos corriam com paus e facões e atacavam os imigrantes. Eles acusam os estrangeiros de ‘roubar' suas casas e empregos. O conflito se espalhou pelas favelas ao redor de Johanesburgo e a outras cidades da África do Sul. O país ficou semanas em chamas. Mais de sessenta pessoas morreram e 17 mil foram obrigadas a fugir. As vítimas eram principalmente estrangeiros, mas também sul-africanos que falam a língua ‘errada', ou seja, que não são zulus, foram assassinados.
Disfarce
Um ano depois, imigrantes ainda têm medo, por isso se ‘disfarçam', conta o holandês Ilja Hehenkamp, de 30 anos, que escreve sua dissertação de mestrado sobre as estratégias que os imigrantes na África do Sul desenvolveram para se sentir seguros após o conflito em Alexandra. E elas são muito variadas. Hehemkamp falou com estrangeiros que levam o dinheiro contado para a condução, para que não precisem pedir troco e os outros passageiros não percebam, pelo sotaque, que são estrangeiros. Outros escondem suas cicatrizes de vacinação nos ombros, porque são diferentes das dos sul-africanos.
Ele conversou principalmente com zimbabuenses, um grupo grande em Alexandra. A estratégia mais comum é falar a língua zulu, adotar um nome zulu e vestir-se como um zulu, o que é chamado de ‘estilo Pantsula'. Assim, usando um tênis All-Stars ou Dickies, compra-se a segurança em Alexandra, diz o cabeleireiro Khumalo.
O zimbabuense de 18 anos Sibosizu, que vende DVDs na rua, confirma. "E eu também uso jeans, camiseta e boné", ele comenta. "Aí você fica parecendo zulu. Meu nome também não é verdadeiro. Meu nome na verdade é Tariro, mas se eu disser, todo mundo vai saber que sou zimbabuense. Me sinto seguro com meu disfarce."
Principalmente para os zimbabuenses que falam ndebele, é fácil disfarçar, já que a língua é muito similar ao zulu.
Necessidade
Hehenkamp acredita que estas estratégias são necessárias, pois ainda ocorrem muitos incidentes de violência por xenofobia na África do Sul. "Acima de tudo, são problemas que causaram uma raiva que ainda não passou", ele ressalta. "Os estrangeiros são bodes expiatórios para os sul-africanos que estão revoltados por suas más condições de vida. E nada mudou nestas condições no último ano."
Como estrangeiro branco, Hehenkamp não é alvo da violência, mas uma espécie de ‘atração' na favela. "Sou o único branco que mora aqui, por isso sempre provoco muitas reações", ele ri. "Antes de morar aqui, minha família e os amigos estavam muito preocupados. Minha irmã me perguntou se eu queria morrer. Com frequência, ouve-se apenas histórias ruins das favelas, mas as pessoas apreciam o fato de que eu me esforcei para morar aqui e entender a sua maneira de viver. Enquanto os estrangeiros com quem conversei têm medo por causa de sua origem, eu, como estrangeiro branco, provoco o interesse deles."
