As ruas de Ashiya, a cidade onde moro, próxima a Kobe, estão muito mais vazias que de costume. "Parece Ano Novo", diz uma jovem, "tão pouca gente". Depois ela aponta para a máscara em seu rosto, "é por causa da minha filha. Ela está em casa porque as escolas estão fechadas".
Por causa da epidemia de gripe, mais de quatrocentas escolas de Kobe e arredores fecharam suas portas esta semana. Em Ashiya e Kobe praticamente não se vê crianças. Nem adolescentes ou estudantes universitários.
No início desta semana, estive o dia inteiro na rua para uma reportagem sobre a crise da gripe no Japão. Em oito horas, vi apenas três mães com crianças. No prédio onde moro, ao contrário, ressoam as vozes dos pequenos. É como nas férias de verão, com todas as crianças em casa.
Exagero
A principal rua de comércio de Kobe, normalmente tão movimentada que é preciso andar em zigue-zague, está quase deserta. Até os trens estão muito mais vazios que o normal. Nas horas de pico, em geral é preciso se espremer. Agora há assentos para todos. Mas todos com máscaras protetoras sobre a boca e o nariz. Nas ruas de Kobe as máscaras também estão em toda parte. Oitenta por cento das pessoas estão usando.
"Você está com medo da gripe?", pergunto a algumas pessoas. "Não", elas dizem, mas é bom não correr riscos. Trabalhadores não têm opção, as empresas estão exigindo o uso de máscara. Policiais, funcionários das linhas férreas, bancários, todos os que trabalham com alimentos, todos de máscara.
Até a porteira do meu prédio. "Segunda-feira fomos avisados pelo escritório que se temos contato com pessoas, temos que usar máscara", ela explica. Mas ela acha uma bobagem: "Tudo isso é um exagero, mas eu sou obrigada a usar."
Grandes encontros e eventos foram cancelados e as lojas estão quase sem clientes. "Nosso movimento caiu 60%", diz o dono da floricultura onde sempre compro flores. Para lojistas e empresários que já sofriam com a recessão, é um desastre que as pessoas não estejam mais saindo de casa. Mesmo o correio está vazio. "Estamos atendendo à metade do número normal de clientes", diz o gerente.
Pesadelo
A decisão do governo de fechar todas as escolas teve uma influência mais negativa, social e economicamente, do que a própria gripe. Para as mães que trabalham, e seus empregadores, é um pesadelo. Algumas mães formaram grupos e se revezam para cuidar dos filhos para que as outras possam trabalhar.
Eu não estou com medo. Tenho máscaras, mas ainda não estou usando. Mas mesmo achando tudo um exagero, não posso ignorar que esta situação também me influencia. As ruas vazias em dias úteis têm algo de sinistro. Todos os rostos mascarados, olhos sem bocas e narizes, têm algo de assustador.
Quando sento no sofá em casa, depois do trabalho, sinto que há uma enorme tensão ao meu redor. E com as escolas ainda fechadas, esta sensação estranha por enquanto vai continuar.
