Quase ninguém ousa ir ao médico por causa disso. E no entanto, a Aids é, desde o ano passado, a mais importante causa de morte em consequência de doenças infecciosas na China. Para quebrar o tabu, o governo chinês patrocinou, recentemente, uma feira de produtos eróticos em Pequim.
"Impressionante", diz Tan Jingrong. "Vim pela curiosidade, mas agora estou pensando em abrir eu mesmo uma loja." Tan está desempregado e vê um bom potencial de venda nos produtos eróticos. Como milhares de outros, ele aproveitou ingressos gratuitos para visitar a feira em Pequim.
Assim como uma jovem chinesa, que foi com o namorado. Ela ficou sabendo há pouco tempo que ele trabalha nesta área e ainda está se acostumando à idéia.
O governo patrocinou a feira como parte de uma nova campanha. O Ministério da Saúde espera fazer com que o sexo seja um assunto menos tabu, de maneira que pacientes com doenças sexualmente transmissíveis não tenham vergonha de ir ao médico. Atualmente, mais de um terço dos chineses não ousa visitar um médico quando tem uma doença relacionada aos órgãos sexuais.
Sexshops
Embora a censura estatal ainda seja rígida em relação ao que definem como conteúdo ‘pornográfico' e ‘vulgar' de programas de televisão e na internet, mais de dois mil sexshops podem operar livremente em Pequim. São as chamadas ‘lojas de saúde'.
Wang Zhouyang, da Emir Health Care, de Ningbo, participou da feira com um estande de vibradores de todas as cores e formatos. "Este modelo menor é muito popular no Japão", diz ele sobre um exemplar enfeitado com pérolas. Numa brochura, ele mostra outros modelos e conta que os maiores são vendidos para os norte-americanos. Mas o crescimento nos próximos anos, segundo Wang, será na China.
Vergonha
"Pequim está atrasada em relação a cidades litorâneas como Shenzhen e Shangai, mas a demanda está aumentando." Há meio ano, Wang entrou para a Emir Health Care, depois que perdeu seu emprego como técnico em eletrônica por causa da crise. "Minha mulher e meu filho a princípio não queriam. Eles tinham vergonha e tiveram dificuldade em aceitar", conta Wang. Mas agora que ele está ganhando bem com os produtos eróticos, sua família mudou de idéia a respeito.
Li Yinhe, sexóloga: ainda há
muito por conquistar.
De acordo com Li Yinhe, a mais famosa sexóloga da China, nos últimos anos houve uma silenciosa revolução sexual. Até pouco tempo atrás, vendedores de filmes eróticos ou fotos pornográficas eram mandados para campos de trabalho. Durante a Revolução Cultural (1966-1976), havia até mesmo penas por beijar em público ou usar roupas sensuais. Mas nos anos 80 isso começou lentamente a mudar.
Impensável
"Entre os jovens de 20 e poucos anos que vivem hoje em cidades como Pequim, Shangai e Guangzhou, a grande maioria tem relações sexuais antes do casamento. Isso era impensável na nossa época", diz Li, nascida em 1952.
Mesmo assim, Li acha que ainda há muito a ser conquistado. "Os métodos de orientação são baseados no medo das doenças", comenta Li. "Mas orientação sexual também tem que abordar o valor da intimidade e do prazer." Ela aponta para o fato de que a China tem justamente uma grande tradição nisto.
Antiguidades
"Antigamente, as pessoas viam o sexo como algo natural e não como algo ruim e sujo. O desejo sexual era encarado da mesma maneira que o desejo por comida." A prova tátil disto está em Panjiayuan, o grande mercado de antiguidades de Pequim. Lá se pode encontrar dezenas de pênis antigos (ou imitações de antiguidades) e outros objetos de cunho sexual, feitos de porcelana ou osso, em todas as cores. E os vendedores não se enrubescem quando se pede uma explicação. Comércio é comércio e justamente em tempos de crise econômica, pode-se ter certeza de que sexo vende.
Fotos: Karen Meirik
